Ou: “Por que, de o mundo estar fora de seu controle, não decorre que se o deva aceitar tal qual ele é”.

Risco.
Quem o teme?
Há um tempo, abri mão de qualquer sentimento de culpa. Ela, como qualquer outra pena, é mero mecanismo de controle, de fora para dentro, do Outro sobre Nós. Porém, isso não quer dizer que eu abri mão do arrependimento. Ao revés, esse sentimento é a prova do aprendizado. Emoções ruins são parte nossa, e a integração supera a negação.
Isso posto, nunca me arrependo pelos riscos que corri. Eu me arrependo dos riscos que me evitei correr, ou do que fiz tentando evitar que viesse a correr certos riscos. Para uma alma como a minha (ou talvez, como todas), a sensação de estar vivo advém mais dum ousado projeto do que da repetição de dias autoprotetores.
Mas por que eu falo de “projeto”, não de “aventura”?
Explico.
Para tanto, adotarei duas premissas:
1. O mundo é caótico.
2. Nós precisamos de uma direção.
Imagino que ninguém discorde delas. Me parece um senso majoritário, ao menos passados o início dos nossos vinte anos, que a repetição de prazeres fáceis não preenche, não por uma questão transcental, mas por como funciona o ciclo dopaminérgico. Disso, advém a necessidade de um Norte, algo fixo e que independa de “ser gostosinho” o tempo todo.
Até aí, todos concordamos.
Entretanto, qual deveria ser esse Norte?
Aqui, creio que eu discorde frontalmente da maioria das pessoas.
Se o mundo sempre foi complexo, hoje ele o é cada vez mais, e, de tão complexo, soa opressora a ideia de tentar buscar ou fazer algo nele, já que do íntimo ao macro, tudo é mais volátil.
Então… sugere-se: “encontre a paz dentro de si”.
Essa ideia, entretanto, subestima nossa influência sobre o exterior e sobrestima nosso controle sobre o interior, como se não fossem ambos universos de igual infinitude.
E, principalmente, ela peca por um simples ponto:
Você não nasceu para buscar nada dentro de si.
Seja duma perspectiva biológica ou duma perspectiva religiosa, o que você precisa está fora.
Seja erguendo sua Fé pelas obras ou conquistando o que Deseja!
Não somos árvores. Nós não seríamos capazes de falar, de ouvir, de correr, de ver a tantos quilômetros de distância, de experimentar afetos profundos, de fazer simbolizações, de guardar memórias, de sentir saudades, caso nosso propósito fosse tão… fechado em si.
E eu sei que o exterior é incontrolável, mas é justamente por isso que nós podemos ver a realidade de forma criativa.
É justamente por isso que nós podemos olhar a incerteza futura e declarar “EU VOU FAZER ISSO ACONTECER!”, improvável quanto pareça!
Não pois você é onipotente, mas porque a mutabilidade das coisas torna impossíveis categóricos praticamente inexistentes. Quase toda assim-dita “impossibilidade” é uma leitura projetiva pautada por medo de frustração.
Então, aceitar as coisas tais quais são, discordando delas, não é consequência lógica de elas estarem fora do nosso controle.
É uma escolha!
Feita por MEDO!
E como já disse e repito, nenhum arrependimento meu vem de eu me expor ao risco: todos vêm de eu tentar me proteger.
Para qualquer ser humano forte (como todos somos, ou não estaríamos mais aqui) acatar essa ideologia de renúncia toda é como prender um tubarão em uma piscina de bolinhas.
Merecemos mais do que isso.
(…)
Muito se fala que nós devemos buscar a nossa criança interior.
Quando éramos crianças, nós sonhávamos. De maneira “maluca”, nós corríamos riscos, frustrávamo-nos, insistíamos.
Não ficávamos assistindo as coisas acontecerem e chamávamos isso de destino.